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#192 - Sátira espacial, processo criativo, Rio dos anos 80, um prato com memória e mais!
Guia EYN

Edição #192
Há fins de semana que pedem outro ritmo. Um livro sobre reorganizar a vida por dentro da casa, sons feitos para desacelerar, uma exposição que reposiciona o olhar e um restaurante que brinca com o tempo. Escolhas que não competem por atenção. Só ajudam os dias a respirarem melhor. Escolha uma, desacelere o resto e deixe o tempo agir.

Blend entre sátira, comédia e ficção científica.
Disponível na Prime Video

Conhecido por seu trabalho em Parasita, o diretor e roteirista Bong Joon Ho segue explorando o humor satírico e o desconforto em Mickey 17. Aqui, a ficção científica não é fuga, é espelho. Robert Pattinson interpreta um funcionário “descartável” em uma missão para colonizar outro planeta — alguém cuja função é morrer para que outros avancem. Entre ironia, exagero e crítica social, o filme brinca com a ideia de progresso enquanto cutuca temas bem terrenos: trabalho, exploração e a banalização da vida.
Um herói real
Disponível no Apple TV

Em The Last Bus (O Ônibus Perdido), Matthew McConaughey entrega uma atuação tão precisa que a sensação é a de acompanhar um fato real direto do sofá de casa. O drama reconstrói um episódio ocorrido durante um incêndio na Califórnia e acompanha a movimentação silenciosa de um motorista que fez de tudo para salvar as 22 crianças sob sua responsabilidade. Sem heroísmo grandioso ou trilha inflada, o filme aposta na contenção para falar de coragem, responsabilidade e escolhas feitas sob pressão. Sensível, tenso e difícil de esquecer.

Dividir a casa, rearrumar a vida

O que Resta de Nós, de Viviane Grimaldi, parte do luto para falar de recomeço. Jeanne, recém-viúva, decide alugar os quartos vazios da casa onde viveu décadas de um casamento amoroso. A chegada de Théo e Iris transforma o espaço e também as pessoas que o habitam. Um romance sensível sobre solidão, convivência e como dividir o espaço pode ser também aprender a dividir a dor.

Para sonhar

Uma playlist para adormecer aos poucos e com sossego. Enter, Sandman é a companhia perfeita para o território indefinido entre estar acordado e pegar no sono. Uma seleção que desacelera, acolhe e acompanha o ritual de desligar.
Quando criar vira narrativa

Song Exploder transforma uma entrevista sobre processo criativo em experiência. Ao convidar músicos a desmontar suas canções faixa por faixa, o apresentador Hrishikesh Hirway constrói retratos íntimos do caminho entre a faísca inicial e a obra final. Um detalhe revelador: suas perguntas são editadas para fora, deixando que a história flua apenas pela voz do artista. Mesmo para quem não é obcecado por música, o podcast é um manual sensível sobre criação, colaboração e o impacto de pequenas escolhas. De Fleetwood Mac a Billie Eilish, cada episódio ilumina um jeito diferente de resolver problemas criativos.

Menos café, mais sono

Pensando em reduzir o cafézinho? Caffeine Curfew é para você. Disponível para iOS e Apple Watch, o aplicativo rastreia como a cafeína se comporta em nosso sistema e quando é o horário ideal para adormecer. Um combo ideal com a playlist da semana e para desacelerar sem culpa.

Açúcar, chocolate, arte e sucata

Vik Muniz ganha a maior exposição de sua carreira no MAC Bahia. “A Olho Nu” percorre mais de 40 anos de produção em mais de 200 obras, das esculturas iniciais às imagens icônicas feitas com açúcar, chocolate, lixo e sucata. Camadas, texturas e brasilidade se misturam em um convite para repensar material, imagem e valor.
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil, Salvador.
Quando: em cartaz até 29 de março

Um mergulho nos anos 80

Giancarlo Restaurante, em Botafogo, resgata a atmosfera de uma cantina italiana familiar com um pé no passado e outro no presente. Recém-inaugurado, foge do óbvio com combinações inesperadas, balsâmico no drink, melão com atum de entrada, e entrega uma experiência que mistura a alma do Rio dos anos 80 com a leveza descolada de hoje.
Onde: R. Oliveira Fausto XI, Botafogo, Rio de Janeiro

Para ouvir ao som de Gramatik, que faz parte da curadoria musical do Cura – e das minhas road trips também!
Se você nos acompanha no Instagram, talvez tenha visto um dos posts mais compartilhados este ano. Ele traz algumas lições da EHL, conhecida como a “Harvard da hospitalidade”, que vão muito além da técnica e ensinam algo muito mais sutil: interpretação. A EHL parte de uma premissa simples e poderosa: serviço é uma relação, não uma tarefa. Ela não ensina apenas como servir bem, ensina como perceber melhor. Enquanto a maioria das empresas treina para seguir protocolos rígidos, essa escola ensina a ler o invisível: expectativas, silêncios, timing, energia. É quase uma antropologia do cuidado. Uma das conclusões mais interessantes é que, quanto mais luxo, menos controle. É assim que ela forma arquitetos de experiência (!) — e não garçons ou recepcionistas.
Esse post veio à minha mente em muitos momentos durante a estada no Four Seasons Hotel Ritz Lisbon. Moro na cidade, mas me hospedei no hotel para conhecer o spa e escrever um conteúdo sobre wellness que sairá em breve aqui na EYN. Desde as primeiras trocas de e-mails, a experiência foi um misto raro de precisão e delicadeza que foi se materializando cada vez mais a partir do check-in.
Tudo fez sentido quando conheci mais sobre o hotel. O Four Seasons nasce nos anos 1960, no Canadá, fundado pela arquiteta (!) Isadore Sharp, com uma ideia que parecia simples e acabou revolucionando o setor: luxo não é ostentação, é constância. Em vez de protocolos engessados, o Four Seasons construiu sua reputação pela obsessão por serviço personalizado, pela autonomia dada a quem está na linha de frente e pela crença de que hospitalidade é, antes de tudo, escuta. Por isso, o grupo virou referência mundial e um caso clássico estudado em escolas como a EHL.
Dentro dessa lógica, o Four Seasons Hotel Ritz Lisboa ocupa um lugar especial. Instalado no antigo Ritz, um ícone modernista de Lisboa, ele carrega a herança de um hotel que sempre foi símbolo de elegância clássica, mas reinterpretada sob o olhar contemporâneo do Four Seasons. O resultado é um luxo que não precisa se afirmar, apenas funciona. Imagine esse nível de serviço em um hotel belíssimo, com salas e móveis deslumbrantes, quartos generosos e uma vista de tirar o fôlego para a cidade. É muito especial ver a cidade em que vivemos de outro ângulo.

Também tivemos a oportunidade de jantar no Cura, restaurante estrela Michelin do chef Rodolfo Lavrador e a sous chef Marina Garcia, que fica no hotel. O Cura é conhecido por uma cozinha profundamente conectada ao território e aos ingredientes portugueses, reinterpretados com técnica, sensibilidade e criatividade. Destaque para o pão de trigos ancestrais com manteiga dos Açores, a açorda com camarão carabineiro do Algarve, o robalo e o borrego (foto), além da viagem por Portugal através dos vinhos (obrigada, João – ao sommelier e a todos os outros Joões que fizeram parte da nossa experiência. Sim, foram vários!). No final, ao perguntar ao meu parceiro qual havia sido o grande destaque da noite, ele — sem conhecer a EHL ou trabalhar na área — respondeu sem hesitar: “a atenção do chef e da equipe. Perceberam nosso jeito, se adaptaram ao nosso ritmo, entenderam que estávamos mais descontraídos do que as outras mesas”. É isso.
Como destaca o nosso post mencionado no início do texto, “a verdade é que as pessoas não lembram exatamente o que você fez. Elas lembram como você as fez sentir”. Bom, no Four Seasons Ritz Lisbon e no Cura eu me senti vista (além de cuidada, descansada e muito bem alimentada). Isso pra mim – para a EHL e acredito que para muita gente – é o verdadeiro luxo.
Outros agradecimentos especiais: Catarina Mendonça, Catarina Oliveira e Bernardo Tavares.


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