- Guia EYN
- Posts
- #193 - EYN Convida: Gisela Schmitt
#193 - EYN Convida: Gisela Schmitt
🥜📮

Edição #193

Gisela Schmitt aprendeu cedo que cozinha é geografia emocional. Formada em Comunicação Social, trocou o roteiro pelo fogão sem nunca abandonar a narrativa: cada prato é uma história, cada mesa, um encontro.
Entre Nova York e São Paulo, trabalhou em restaurantes, buffets, mergulhou no universo do catering, deu consultorias de A&B, ensinou gente a cozinhar — e, no processo, foi afinando o que viria a ser sua assinatura: hospitalidade sem afetação, técnica com alma de casa, experiência antes de tendência.
O destino final desse trajeto tinha mar. Foi em Paraty que o mar redesenhou o mapa. Os almoços entre amigos a bordo da traineira Sem Pressa revelaram um talento especial para criar encontros inesquecíveis — embrião do Gastromar, na Marina Porto Imperial. Aberto do café à noite, o espaço combina restaurante, bar e empório. Em 2024, Gisela ampliou a experiência com a Casa Tomate, refúgio de temporada com projeto de Erick Figueira de Mello, quatro suítes, piscina, sauna e serviços que incluem a horta orgânica e o catering do Gastromar.
Gisela não inaugura apenas endereços. Cria portos, e quem chega, fica.
O que te fez ficar em Paraty quando a ideia era apenas passar

(c) Paulo Malvão
O desejo de me conectar com o mar e a terra e de sentir meus filhos crescendo numa infância diferente da minha. Percebi que ficar fazia mais sentido do que partir. Que escutar o que esse paraíso precisava valia mais do que agir na cidade grande.
Um conselho que vale a pena compartilhar
O ótimo é inimigo do bom. Meu marido repete muito isso para mim. Por muito tempo, meu perfeccionismo acabava travando a fluidez de projetos lindos. Quando entendi que o bom bem feito supera o ótimo idealizado, muita coisa começou a fluir de forma mais leve.
O que significa cozinhar sem pressa num mundo acelerado
É olhar no olho de quem está por trás do ingrediente. Respeitar o produto na cozinha, saber de onde ele vem, se rodear de amigos e família ao redor do fogão, jogar conversa fora enquanto a comida acontece, servir com empatia e sentar à mesa com presença real.
Qual foi a maior mudança interna ao trocar São Paulo pelo mar
Aceitar que nem tudo é imediato e previsível. O mar me ensina que tudo está sempre em movimento, em marés diversas entre criar, executar, pausar, planejar e respeitar os nossos ciclos. Tudo acontece conforme a natureza.

Um medo que precisou ser atravessado para mudar de vida
O medo de planejar a longo prazo. Tinha aflição de programar as coisas achando que isso era como afogar a minha liberdade. Depois do nascimento dos meus filhos, percebi que planejar com antecedência é o que possibilita eu conseguir trabalho e vida pessoal.
Hoje, sucesso significa
Trabalhar com uma equipe que cresce junto, ter propósito, ter o meu trabalho reconhecido por pessoas que admiro e ter tempo de verdade com a minha família.
Um ingrediente do litoral que você acha injustamente subestimado

Sardinha. É acessível, saborosa, cheia de personalidade e extremamente versátil.
Um erro de cozinha que virou aprendizado fundamental:
Errar é humano. Repetir o erro é rever processos. E este tem que ser um exercício diário para uma cozinha fluir e minimizar riscos, conflitos e desperdícios. Cozinha é coletivo.
O que te motivou a transformar sua cozinha em livro

A vontade de compartilhar caminhos possíveis. “Para Ti Sem Pressa” nasceu do desejo de mostrar que é possível mudar de ritmo, de lugar e de forma de viver com um intercâmbio de aprendizados. E também como uma forma de agradecer a Paraty por tudo o que ela me deu e me dá.
Um livro que vale a pena ler

Desreceitas, idealizado pela amiga Rose Klabin, o qual tive a honra de participar num diálogo prazeroso com o também amigo Nazareno. O livro é um deleite de dez diálogos sobre processos criativos entre arte e comida, encontros e receitas.
Uma dica de Paraty para um turista
Ande sem pressa, se perca no Centro Histórico, entre no mar e descubra o mato. Paraty acontece quando você solta o controle.
Se pudesse jantar com duas personalidades históricas, quem escolheria e por quê?
Acho que Coco Chanel, Elis Regina e eu daríamos uma boa mesa.
Coco, para conversar sobre independência, empreendedorismo feminino, visão e a construção de uma identidade própria, atemporal, que não se esgota. Elis, para trazer a boemia para o jantar, a conversa afiada, a música, a poesia e a intensidade de quem viveu a liberdade atravessada por conflitos.
No final, com um dry martini na mão, um cigarro aceso e boas risadas, brindaríamos a essa vida intensa, imperfeita e cheia de maravilhosidades.
Um filme que vale a pena assistir

A Festa de Babette, porque fala sobre generosidade, prazer e sobre oferecer o melhor sem esperar nada em troca.
Um sonho literal ou simbólico que ainda pulsa em você
Um sonho que pulsa em mim é ampliar o acesso à educação e à cultura para quem trabalha na minha área, seja na cozinha ou no salão. Acredito muito que o trabalho pode ser uma porta para o mundo, para novas referências, encontros e possibilidades. Quanto mais essas pessoas ampliam repertório, convivem com ideias diversas e vivem outras experiências, mais elas crescem como profissionais e como indivíduos.
Uma questão existencial que te acompanha há tempos
Meu medo de gatos. Já fiz até regressão para entender e melhorei muito. Hoje virou quase uma curiosidade sobre como a mente cria histórias.
Um objeto pessoal que sempre carrega consigo e sua história
Canivetes. Adoro e tenho uma coleção espalhada pelas minhas bolsas e gavetas.
Um ritual que te ancora quando tudo fica intenso
Entrar no mar e abraçar bem forte meu marido lá dentro. Isso sempre recoloca tudo no lugar.
Uma frase que resume seu jeito de viver
“É preciso sair da ilha para ver a ilha”, como diz Saramago.
O que você deseja que alguém sinta ao sentar à mesa do Sem Pressa ou do Gastromar

Prazer. E que o tempo deu uma pausa.

O que você achou desta edição?Compartilhe seus pensamentos, ideias ou sugestões para futuras edições depois de votar! |
Faça Login ou Inscrever-se para participar de pesquisas. |

Reply