Edição #195

Henrique Sá Pessoa não é apenas um dos chefs portugueses mais premiados da sua geração, é um criador de universos à mesa. Nascido em Lisboa, em 1976, descobriu a vocação durante um intercâmbio nos Estados Unidos e refinou a técnica no Cordon Bleu antes de passar por cozinhas em Sydney, Londres e hotéis icônicos da capital portuguesa.

Foi com o Alma que consolidou seu lugar entre os grandes da Europa, somando duas estrelas Michelin e projetando Lisboa no mapa da alta gastronomia internacional. Mas a cozinha, como a vida, é feita de ciclos — e o Alma encerrou um capítulo que marcou época.

No caminho, acumulou prêmios (Chef do Ano, GQ Men of the Year, Best Chef Awards), abriu projetos em Lisboa, Londres, Amsterdã, Macau e Miami e levou a culinária portuguesa para a televisão — do Ingrediente Secreto ao Comtradição, exibido em 12 países.

Sua assinatura? Produto impecável, técnica precisa e uma cozinha que cruza tradição portuguesa, influências asiáticas e repertório de mundo. Para Henrique, só existe boa ou má cozinha.

Em 2025, confirmou mais uma estrela Michelin no Vinha Boutique Hotel, em Vila Nova de Gaia. Agora, inicia uma nova fase no seu espaço no Time Out Market Lisboa e com a abertura do seu novo restaurante autoral.

O que essa grande mudança representa para você além dos negócios?

Representa um regresso às origens. A oportunidade de recentrar, de simplificar e de voltar a cozinhar para as pessoas de forma direta. É um momento de alinhamento pessoal: fazer menos, mas fazer melhor.

O menu do dia a 12,50€ é estratégia, manifesto ou provocação

É um gesto. Uma forma de dizer que boa cozinha não tem de ser inacessível. Não é provocação, é responsabilidade. Se tenho técnica, equipa e visão, porque não colocá-las ao serviço de algo que qualquer pessoa possa experimentar?

O que significa levar a assinatura de um chef com duas estrelas Michelin para o Time Out Market

Significa assumir que a minha cozinha não vive só dentro de uma sala de fine dining. A assinatura está na forma como trato o produto, na coerência, na técnica. Se isso existe, pode viver em qualquer contexto, desde que haja respeito pelo cliente.

O que muda na sua cabeça quando pensa “menu de degustação” vs. “menu do dia”

No menu de degustação penso em narrativa, em ritmo, em construção. No menu do dia penso em conforto, sabor imediato e eficiência, mas nos dois penso em honestidade e sabor.

O que você quer que alguém sinta ao experimentar sua cozinha nesse formato mais acessível

Quero que sinta que foi bem tratado. Que percebeu a minha identidade num prato simples. Que saiu dali a pensar: ‘Isto é cozinha genuína, sem pretensão’.

O que a experiência de duas estrelas Michelin te ensinou que você quer preservar. E o que quer reinventar

Quero preservar o rigor, a disciplina, o respeito pelo produto. O que quero reinventar é a relação com o público, torná-la mais aberta e mais próxima.

A alta gastronomia precisa se reinventar para sobreviver?

Precisa. Não na técnica, mas na atitude. Tem de ser mais humana, mais sustentável, mais consciente do mundo real.

O que Portugal ainda pode conquistar no cenário gastronômico mundial

Pode conquistar mais diversidade, mais identidade regional, mais coragem. Temos produto, talento e cultura, falta acreditar que não precisamos copiar ninguém.

Um livro que todos deveriam ler ao menos uma vez

Kitchen Confidential’, do Anthony Bourdain, pela verdade crua e pela paixão.

Uma palavra que vale a pena conhecer

Resiliência sempre. Tem camadas.

Uma causa que está no seu coração

A formação de jovens cozinheiros. É ali que começa o futuro da gastronomia.

Um conselho que vale a pena compartilhar — sobre carreira ou vida

Trabalha com consistência. O talento abre portas, mas é a disciplina que te mantém lá dentro.

Um hábito diário que nutre sua criatividade

Observar. Ver mercados, ver pessoas, ver pratos simples. A criatividade nasce do quotidiano.

Um objeto pessoal que sempre carrega consigo — e a história por trás dele

Uma pequena faca de cozinha que comprei no Japão. Lembra-me que a precisão está nos detalhes.

Seu lugar favorito em Lisboa

O Mercado da Ribeira tradicional ao início da manhã. É Lisboa no seu estado mais puro.

Se pudesse resumir esse momento da sua vida em um sabor, qual seria

Um caldo bem reduzido: concentrado, essencial, sem excessos.

Algo que as pessoas não imaginam sobre você

Sou mais introvertido do que pareço. A cozinha sempre foi o meu refúgio.

Meu lema é

Menos ego, mais sabor.

O superpoder que você gostaria de ter

Parar o tempo, pelo menos durante o serviço.

Se pudesse jantar com duas personalidades históricas, quem escolheria e por quê

Ferran Adrià, para falar de criatividade e de alterar paradigmas gastronômicos, e Michael Jordan, para falar de foco, de objetivos, força mental.

Um filme que vale a pena assistir

Goodfellas - Tudo bons rapazes (um clássico que se repete sempre com o mesmo impacto)

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