
Edição #196
Há finais de semana que pedem histórias que ficam. Um cinema de infância que nunca vai embora, um amor que atravessa décadas sem nunca se explicar, conversas sobre clássicos incômodos, música que muda o clima da casa, espaços pensados para serem sentidos. Escolha uma, desacelere o resto e deixe o tempo agir..

Arquitetura do crime
Disponível na Netflix

Barcelona. Um corpo carbonizado na fachada de La Pedrera, o edifício icônico de Gaudí. É assim que começa Cidade das Sombras e é difícil parar. O inspetor Milo Malart acabou de sair de uma suspensão por insubordinação quando é chamado de volta para investigar o caso. Ao lado dele, a subinspetora Rebeca Garrido, dupla que tem química de verdade e evolui episódio a episódio. A série não é veloz, é densa. Constrói, acumula, entrega. A temporada curta, com seis episódios, facilita a maratona... E tem mais: Verónica Echegui, que dá vida à Rebeca, morreu quatro meses antes da estreia. Isso talvez não mude a série, mas muda como você olha pra ela.
Clássico não é palavra grande demais pra esse filme

Tem filmes que você assiste. E tem filmes que ficam em você por anos sem pedir licença. Uma pequena cidade na Sicília. Um menino. Um velho projecionista. Um cinema que é o coração de uma comunidade inteira. É simples assim, e por isso talvez machuca tanto. Tornatore reflete sobre o cinema como experiência vivida, sobre como as imagens continuam existindo além do momento em que foram projetadas. Mas no fundo, Cinema Paradiso é um filme sobre o que a gente deixa pra trás quando cresce. Sobre os mentores que moldaram quem a gente virou. Sobre o quanto às vezes é preciso se afastar de um lugar para entender o quanto ele importou. O final é considerado um dos maiores da história do cinema. Não vamos estragar. Só vamos dizer: separa um lenço.

Amor aqui é indefinível, com mil caras, tal como a menina má

Um homem bom. Uma mulher impossível. Quarenta anos de encontros e desencontros pelo mundo. Ricardo, ainda adolescente, se apaixona por Lily, uma peruana que fingia ser chilena. Ela some. Reaparece anos depois com outro nome, outro marido, outra vida. E assim vai. Paris nos anos 60, Londres nos 70, Tóquio nos 80, Madrid nos 90. Ela sempre mudando, ele sempre lá. Travessuras da menina má é um romance de amor, mas não o tipo que conforta, o tipo que incomoda, que faz você se perguntar onde termina a paixão e começa a obsessão.
Vargas Llosa dizia que escrever um romance de amor é um dos maiores desafios literários, porque a tradição é rica demais e o estereótipo espreita o tempo todo. Ele desviou de tudo isso. Saiu pela tangente da ambiguidade, da mulher que você não consegue defender nem consegue abandonar. O Nobel morreu em abril de 2025, portanto, esse livro é um bom lugar pra começar ou recomeçar.

Clássicos que seguem provocando

No embalo das polêmicas sobre O Morro dos Ventos Uivantes, livro versus filme e fidelidade versus adaptação, o podcast The Rest is History resolve fazer o que a gente ama: contextualizar. Quem era Emily Brontë? Por que o 'mocinho', e talvez grande vilão da narrativa, Heathcliff ainda divide opiniões dois séculos depois? E por que esse romance continua tão desconfortável?
É daquelas escutas que ampliam a experiência de leitura. Você sai não só entendendo melhor o livro, mas entendendo melhor o mundo que o produziu. Não podemos deixar de alertar: talvez você desgoste ainda mais da adaptação para as telonas após conhecer mais a fundo a obra e seu contexto.
Do improviso ao fenômeno

O Tiny Desk nasceu daquele incômodo de não conseguir ouvir um show direito. Sabe quando estamos em um bar e não é possível nem conversar nem escutar a banda? Pois bem, o pessoal da NPR resolveu trazer artistas para uma mesa de escritório e o resto virou história. A chegada ao Brasil já trouxe Gilberto Gil, Alceu Valença, Liniker, Sandra Sá.
Mas nosso destaque vai para João Gomes. É aquele episódio que você coloca para tocar e a casa muda de clima. Serve para almoço com amigos, serve para cozinhar sozinho, serve para deixar a música ocupar o espaço e preencher o silêncio.

O arquiteto que não cabe em rótulos

Você já deve ter visto mais de um prédio do Isay Weinfeld e talvez nem saiba disso. Essa é a graça. Difícil definir o estilo. Moderno? Minimalista? Brasileiro? Internacional? Ele escapa de todos esses rótulos.
A mostra Etcétera, no Instituto Tomie Ohtake, percorre cinco décadas de produção que atravessam arquitetura, design, artes visuais e cinema. Não é só sobre prédios. É sobre atmosfera. Sobre proporção. Sobre como o espaço pode dizer mais do que palavras.
Onde: Instituto Tomie Ohtake, Av. Faria Lima 201, São Paulo
Quando: 5 de março a 17 de maio

O mais "novo" quintal de São Paulo

Dizem que a Pompeia virou o novo endereço das programações bacaninhas de São Paulo e o Isca, ainda que em soft opening, ajuda a confirmar essa tese. O espaço é informal e aconchegante ao mesmo tempo.
Para quem ama comer comida boa, sem muita cerimônia, mas com muito cuidado, seja sentado dentro ou no quintal em uma cadeira de praia. A cozinha é autoral de pintxos e os vinhos são naturais com o toque da carta de drinks do Caracol. E para os cariocas (de certidão ou de coração), a casa também tem uma unidade no Rio
Onde: Rua Dr. Miranda de Azevedo, 633, São Paulo

Um dos segredos mais bem guardados de Lisboa

Numa ruazinha discreta da Madragoa, em Santos, há um endereço que parece sussurrado entre amigos. O UAIPI é um café brasileiro dedicado à mandioca — raiz, memória, matéria-prima e manifesto. Mas, em noites selecionadas, as luzes baixam, as mesas se alongam e o espaço se transforma em um dos jantares mais especiais (e ainda secretos) de Lisboa.
À frente está Laila, cozinheira de intuição rara, que trata a tradição brasileira como ponto de partida, nunca como limite. Ao lado, Greg recebe cada convidado como quem abre a própria casa. O resultado é uma cozinha que poderia ser descrita como a da sua avó (se a sua avó tivesse feito intercâmbio em Paris!). Técnica e afeto dividem o mesmo prato; tempo e dedicação aparecem em cada detalhe.
Os jantares acontecem das 20h às 23h, na Travessa das Isabéis, 18. São apenas 16 lugares, distribuídos em duas mesas comuns. Todos se sentam juntos, comem ao mesmo tempo, conversam — mesmo sem se conhecer. A dupla cozinha, serve, explica, brinda e vive a noite com os convidados. Já houve menus inteiros dedicados à mandioca, ao DNA da casa; já houve Minas Gerais; o próximo, franco-brasileiro, terá seis tempos — ostra com taça de vinho, couvert, duas entradas, prato principal e sobremesa.
Uma das coisas mais apaixonantes em Lisboa é essa convivência entre tradição e inovação. O UAIPI encarna isso com naturalidade rara. Merecem estar sempre lotados. Vá antes que fique impossível. O próximo jantar acontece em breve e, como todo bom segredo, não deve permanecer guardado por muito tempo.


