Edição #199

Vivi Rosa (Cascavel, 1981) trabalha no encontro entre corpo, matéria e presença, onde o gesto revela o que quase passa despercebido. Escultura, instalação, vídeo-arte, foto-performance: sua prática percorre esses territórios sempre guiada por uma escuta atenta das dinâmicas silenciosas que atravessam o comportamento humano.

Autodidata, desenvolveu uma massa autoral que sustenta obras de grande escala e imprime fisicalidade viva ao espaço. No processo dela, o descartado muda de estado — ganha tempo, densidade, intenção. Deixa de ser resto pra se tornar linguagem.

O trabalho nasce do toque: pequenos gestos, encontros de olhar, movimentos mínimos. São esses fragmentos que interessam e que, nas mãos dela, se expandem em formas que falam de vínculo, tensão e permanência.

Atualmente, vive e trabalha em São Paulo e recentemente foi finalista do Craft Prize 2026 (@loewefoundation), além de participar da Bienal Intercontinental 2026 (@intercontinentalbiennial) e fundar a @casaondina@sp_arte (08–12/04).

O que a matéria te revela antes mesmo de virar forma?

A matéria nunca chega neutra. Ela vem com peso, limites e um comportamento que não depende de mim. Antes de qualquer intervenção, ela já tem um caráter próprio, algo que já está lá.

O que aparece nesse início não é a forma, mas uma direção. A matéria impõe condições, estabelece um campo, e o trabalho começa nessa negociação.

O que te fascina na ideia de transformar aquilo que seria descartado em presença escultórica?

O que me move é mudar o valor das coisas. O descarte não é o fim, é só uma mudança de contexto. Aquilo que foi jogado fora ainda tem peso, história e matéria, mas parou de ser visto.

Quando isso volta como escultura, não é um reaproveitamento funcional. O material passa a ocupar outro lugar, deixa de ser invisível e passa a exigir presença. Eu não começo do zero; parto de algo que já teve um percurso, que foi usado e que, mesmo assim, continua ativo.

O que o vidro, o algodão e o cimento te ensinaram sobre fragilidade e força?

Esses materiais me fizeram rever o que eu entendia por força. Na prática, uma coisa não existe sem a outra.

O vidro é rígido, mas vulnerável ao impacto. O algodão ganha função estrutural quando é tensionado e incorporado à peça. E o cimento, que a gente associa à solidez, também é sujeito a fissuras, retrações e movimentos.

Com eles, eu entendi que força não tem a ver com ser duro, e fragilidade não é ser fraco. São estados da matéria que se reorganizam o tempo todo, dependendo de como eu conduzo o trabalho.

O seu trabalho nasce do corpo. O que o corpo sabe que a mente ainda não formulou?

O corpo resolve antes de nomear. Ele não trabalha com conceito, mas com ajuste. É ele que sente o peso, encontra o equilíbrio e insiste até a forma se sustentar, ou cede quando algo não funciona. No meu processo, as decisões acontecem no contato direto com a matéria. Estão na pressão da mão, na repetição do gesto, no tempo para algo se estabilizar. É um entendimento que não depende de explicação, mas de presença.

A mente vem depois, tentando dar forma ao que o corpo já resolveu.

Algo que você ainda quer descobrir através da matéria

Quero entender até onde a matéria sustenta sua presença e, ao mesmo tempo, convida quem olha para diferentes leituras.

O que eu procuro é esse ponto de equilíbrio: quando a peça se impõe pelo que ela é — pelo peso, pela forma, pelo espaço — mas também abre caminho para que a pessoa consiga ler e acessar o que está ali.

Busco uma forma que não seja óbvia, mas que também não seja fechada em si mesma. É um ajuste fino, porque qualquer excesso pode enfraquecer essa relação entre o objeto e quem o vê. É essa comunicação que eu sigo investigando.

Suas obras parecem respirar no ambiente. O que significa dar “tempo” à matéria?

Dar tempo à matéria é entender que ela tem um ritmo próprio que não dá para acelerar. Cada material responde de um jeito, ele expande, retrai, tensiona, se acomoda. Se você força esse tempo, a forma pode até acontecer, mas ela não se sustenta.

No meu processo, respeitar esse tempo faz parte da construção. É o momento em que a matéria se estabiliza e mostra até onde pode ir. Muitas decisões só aparecem depois disso. Não é espera, é ajuste. Dar tempo à matéria é trabalhar com ela, e não contra ela.

Existe algo na forma como nos relacionamos hoje que te intriga ou preocupa?

Me intriga como está difícil sustentar presença. Hoje as relações acontecem sem que as pessoas realmente se olhem. Falta o olho no olho, falta a escuta, falta a palavra dita com peso. Sinto uma pressa constante e uma superficialidade nas trocas, mas também uma dificuldade de olhar para si com atenção. Sem esse movimento interno, a relação com o outro acaba ficando vazia.

Ser autodidata mudou a forma como você se relaciona com erro e descoberta?

Ser autodidata define como eu trabalho. Eu nunca parti de um modelo pronto, então tudo se constrói na base de testes. É nesse campo que as coisas acontecem de verdade.

O erro, para mim, não é uma falha. Ele é uma resposta do material. Muitas vezes, é ali que algo se revela, quando a forma desvia, quando o material reage de um jeito que eu não esperava ou quando um limite aparece.

Esse processo exige critério, porque nem tudo o que surge se sustenta. É preciso insistir, refazer, entender o que fica e o que precisa ser abandonado. A descoberta não vem pronta; ela se constrói nesse movimento de testar e ajustar o tempo todo.

O que significa para você ter Resonance entre os finalistas do Loewe Craft Prize?

É ver um trabalho muito íntimo ganhar outra escala. Resonance nasce de uma memória pessoal, de um som que ficou no corpo, e agora ele passa a circular em um contexto maior, em diálogo com outros olhares.

Isso desloca a obra. Ela deixa de existir só dentro do meu percurso e começa a operar em um campo novo, com outras leituras. Para mim, isso tem muito valor, não só pelo reconhecimento, mas pela chance de troca. O mais importante é que, mesmo com essa expansão, a origem do trabalho continua sendo a mesma.

Existe algo no artesanato contemporâneo que você acha que ainda é pouco compreendido?

O que ainda falta entender no artesanato contemporâneo é que ele não está preso a uma função ou à tradição. Ainda existe uma expectativa de que o fazer manual precise servir para algo, ter uma utilidade ou mostrar um domínio técnico.

Eu vejo o trabalho como linguagem. A técnica não é o fim, é o caminho para construir a forma e o pensamento. Também existe essa ideia de que o artesanato é algo controlado, mas no atelier o processo é aberto. Tem teste, erro e o material reagindo o tempo todo. Essa liberdade do fazer ainda não é totalmente reconhecida.

Uma palavra que você gostaria que o Brasil reaprendesse

Palavra

Eu cresci em um lugar onde o que era dito tinha peso. Não precisava de contrato, a palavra sustentava o acordo.

Se pudesse jantar com duas personalidades históricas, quem escolheria e por quê?

Frida Kahlo e Maria Martins.

Escolheria a Frida pela coragem de colocar a própria vida na obra sem filtro. O que ela pintava não era representação, era a vivência do corpo e do desejo. É uma entrega que me toca muito.

E a Maria Martins pela força da sua escultura. Ela não tentava suavizar as formas; trazia o estranhamento e uma tensão que não pede aprovação. Seria uma conversa sobre o que a gente sente e o que a gente faz com as mãos.

Algo que você precisou desaprender para se tornar quem é hoje

Desaprendi a ideia de que o trabalho precisa seguir um percurso linear ou uma lógica de começo, meio e fim. No atelier, entendi que o tempo da criação é diferente e que a pressa por um resultado final pode cegar o olhar para o que a matéria está entregando no agora.

Precisei deixar de lado qualquer conceito engessado sobre o que é certo ou errado na técnica. O meu aprendizado é direto, vem da insistência e do corpo no espaço. Hoje, o que eu busco é essa liberdade de deixar a obra ditar o seu próprio caminho, sem tentar controlar cada etapa do processo.

Um gesto simples que revela muito sobre uma pessoa

O olhar de quem escuta. É o que entrega se a pessoa está ali de verdade ou se já partiu para outro lugar.

Um filme que vale a pena assistir

In the Mood for Love, do Wong Kar-wai. Pela beleza do silêncio e pela construção do que não é dito. O filme tem uma pulsação e uma cor que dão peso para cada gesto, para cada espera. É uma obra onde o que não acontece é tão presente quanto o que se vê.

Um livro que todos deveriam ler ao menos uma vez

A Poética do Espaço, de Gaston Bachelard. É um livro que muda a percepção sobre o lugar onde a gente vive. Bachelard mostra que o espaço não é um vazio, mas algo que guarda a nossa memória e os nossos sonhos. Como escultora, essa leitura é fundamental porque me lembra que, ao dar forma à matéria, estou construindo um lugar para o imaginário. Ele faz a gente perceber que a imensidão do mundo também cabe na intimidade de um objeto pequeno.

Algo que as pessoas não imaginam sobre você

Quase todo mundo na minha família nasceu no dia 11 — meus pais e minhas três irmãs. Eu fui a única que nasceu no dia 20, que para mim é a soma de 1+1=2 

Sem perceber, criei essa mania de somar números: placas, endereços, qualquer sequência. E, por alguma coincidência estranha, os lugares por onde eu passo acabam dando 11.

Acho que é a única coisa exata na minha vida. No resto, sou totalmente de humanas.

O único artista cujo trabalho você colecionaria se pudesse…

Maria Martins. Gosto de como ela não tenta suavizar a escultura. O corpo e o desejo aparecem de um jeito direto, às vezes desconfortável, sem aquela preocupação de deixar a forma bonitinha ou resolvida. O trabalho dela não precisa de explicação, ele se sustenta. Tem tensão, tem força e não pede aprovação. É uma escultura viva, que não está ali para agradar ninguém.

Uma frase que você guarda como norte

Não preciso saber como. Só acreditar que é possível.

Algo que o design pode fazer que a política não consegue

O design muda o que as pessoas fazem. A política, muitas vezes, fica no que promete. O design atua no uso, no gesto e no corpo. Ele não precisa convencer ninguém; ele se instala e pronto. Enquanto a política tenta mudar o pensamento através do discurso, o design muda a nossa experiência direta de estar no mundo.

Uma pergunta que você gostaria que te fizessem mais

Com o que você anda ocupando sua cabeça?

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