
Edição #203
João Gabriel é arquiteto e urbanista, além de designer, educador e comunicador. Fundador do JG+ Arquitetos, foi reconhecido como Forbes Under 30 e 2x listado na Casa Vogue 50 Arquitetos Mais Influentes do Brasil, construiu uma trajetória que parte do interior da Bahia, e hoje atua em diferentes regiões do Brasil e do mundo.
Se destaca por unir técnica e narrativa, com uma linguagem autoral que celebra brasilidade, cor, repertório cultural e referências decoloniais sem abrir mão da sofisticação. Integra o elenco da CASACOR Bahia e lidera iniciativas que ampliam acesso e fortalecem o mercado.
Criou o Ideias, um ecossistema de consultorias e projetos online pensado para diferentes níveis de complexidade, e também a Sala Preta, que desenvolve e promove o reconhecimento de profissionais negros na arquitetura.
Em que momento você entendeu que arquitetura também é narrativa, e não só construção?
Acho que isso sempre esteve em mim, porque desde cedo enxerguei a arquitetura como uma ferramenta de mudança, seja individual ou coletiva. Individual porque cada pessoa é um mundo, e isso inevitavelmente reverbera no coletivo.
O que significa, para você, fazer uma arquitetura com identidade brasileira hoje?
Fazer uma arquitetura decolonial. Para mim, produzir arquitetura brasileira é ressaltar signos que despertam memória e garantem a permanência da nossa história sendo contada por meio dos espaços e das construções. A casa de vó, tão discutida e debatida recentemente no meio do interiores é um ótimo exemplo. Mesmo que não tenhamos as mesmas referências, as pessoas sempre sabem quando se trata de uma casa conhecida por essa memória. O filtro de barro, os vasos de planta, os símbolos religiosos... são signos que ressaltam identidade.
No Projeto Candeal, você parte da escuta antes da forma. O que o território te ensinou antes mesmo de pensar na paleta?
As pessoas já sabiam do que gostavam. A gente imaginava que talvez fosse descobrir outra coisa, ou até que os moradores não quisessem tantas cores, mas a escuta só confirmou o que o território já mostrava: um lugar colorido, alegre e profundamente musical.

Você fala sobre a paleta como tradução do que já pulsa no bairro. Como foi reconhecer isso no Candeal?
Quando a Suvinil me chamou para assinar a paleta, eu queria entender se, de fato, o bairro era musical ou se isso era apenas uma narrativa construída para marketing. Mas o bairro é musical de verdade. Isso está na vida cotidiana, na forma como as pessoas ocupam a rua, celebram o urbano e transformam a convivência em experiência coletiva. Na nossa primeira visita, por exemplo, vimos a rua pulsando numa segunda-feira, com feijoada, música e encontro. A paleta precisava traduzir essa energia.
Seu trabalho equilibra técnica e repertório cultural. O que vem primeiro para você: conceito ou solução?
O conceito sempre vem primeiro. É a partir dele que vamos resolvendo as questões do projeto. Não consigo imaginar um projeto sem um conceito estabelecido. Para mim, seria como pintar um quadro sem imaginar antes quais cores vão guiá-lo.
Existe algo que você precisou desaprender ao longo da sua formação para chegar à sua linguagem hoje?
Acho que precisei desaprender a enxergar arquitetura da forma como ela me foi apresentada na faculdade. As referências eram quase sempre as mesmas e, para mim, muitas vezes não faziam sentido. Já perto da formação, comecei a buscar minhas próprias referências e foi isso que me aproximou da linguagem que construo hoje.
O que significa, na prática, democratizar a arquitetura?
É tornar esse campo, que ainda parece tão distante de muitas pessoas, algo mais próximo e compreensível. É fazer com que minha mãe, que é feirante, consiga entender o básico de arquitetura para não se perder em uma possível construção ou reforma.
O Ideias e a Sala Preta são extensões do seu trabalho. Em que momento você percebeu que projetar não era suficiente?

Quando comecei a crescer na profissão e, ainda assim, não me ver nos espaços que estava ocupando. Era tudo muito solitário. Vir de onde eu venho e ter a aparência que tenho cria uma distância grande em relação ao perfil que historicamente foi legitimado na arquitetura no Brasil. Aqui, ainda estão acostumados a associar a profissão a pessoas que vieram de lugares muito privilegiados. Eu venho de baixo. A Sala Preta nasceu também como uma escolha de autopreservação. Ter mais pessoas negras nesses espaços é construir uma voz mais coletiva para todos nós.
Sair do interior da Bahia para ganhar projeção nacional mudou o seu olhar sobre o Brasil?
Eu sempre digo que saio das bordas para o centro, e isso me dá uma consciência diferente sobre o que escolho como referência. Entendo que minhas conquistas individuais não mudam, sozinhas, o coletivo. Mas ocupar espaços de destaque pode me dar mais voz para tensionar e transformar esse coletivo.
Existe algo da sua origem que você faz questão de preservar em todos os projetos?
A minha origem como um todo. É ela que me mantém com os pés no chão. O Canto de Gil, ambiente que fiz pra Casacor Bahia 2024 ressalta bem isso, fui atrás de referências que faziam sentido pra mim, pra conseguir que fizesse sentido para os outros. Nele eu falei de raízes negras a partir da história de Gil enquanto músico.
Se pudesse jantar com duas personalidades históricas, quem escolheria e por quê?

Tebas e Maria Quitéria. Duas figuras que, de formas diferentes, falam sobre força, resistência e presença histórica.
Um filme que vale a pena assistir

Sou muito dos romances, então amo Questão de Tempo. Entre os brasileiros, gosto muito de Que Horas Ela Volta?
Um livro que todo mundo deveria ler

Tornar-se Negro, de Neusa Santos Souza. O livro em si fala sobre a descoberta social de pessoas negras e pra mim foi importante entender na coletividade minha negritude e o quanto ela influencia na minha forma de ver o mundo.
Uma palavra que vale a pena reaprender
Tempo
É o que mais me falta hoje em dia kkkk e talvez algo que eu precise ressignificar se eu quiser ter mais qualidade de vida e o ao mesmo tempo é o que em minha profissão é mais importante para poder criar.
Um hábito que nutre sua criatividade:
Conversar! Com todos. A ideia de conversar me faz aprender. Eu gosto de trocar com as pessoas, mas ouvir sempre me faz entender mundos singulares e a partir disso nasce muita coisa bacana. Talvez por isso eu goste da profissão de arquiteto, porque dentro dela eu consigo criar a partir dessas conversas.
Algo que as pessoas não imaginam sobre você
Acho que muita gente não imagina o quanto eu trabalho desde muito novo. Tenho 29 anos e comecei a trabalhar aos 14, então metade da minha vida foi dedicada ao trabalho.

No Brasil, cor é linguagem, cultura e identidade
Existe uma pergunta que ninguém faz, mas todo mundo sente: por que o Brasil é tão colorido? Não é acidente. Não é exagero. É resposta. E a Suvinil e o seu novo posicionamento de marca Cor Muda Tudo, convidaram a gente pra contar essa história.
Foi do encontro entre cor e identidade que nasceu um dos projetos mais emocionantes da Suvinil com o conceito Cor Muda Tudo, que celebra a energia, a criatividade e a pluralidade brasileiras.
O Candeal — um bairro que nasceu da resistência, berço da Timbalada, quilombo urbano, território que nunca pediu permissão para ser vibrante. Foi ali que a Suvinil em parceria com a Associação Pracatum Ação Social chegou para celebrar a cor que já existia.
Mais de 150 casas foram revitalizadas com uma paleta cocriada a partir da escuta dos próprios moradores. Quatorze tons — como Geleia de Goiaba, Flamboyant, Borboleta Azul e Força Interior — não foram impostos. Foram construídos em diálogo, vieram das fachadas, das memórias, do afeto de quem mora ali.
O arquiteto João Gabriel percorreu o bairro antes de escolher uma cor sequer. Cerca de 20 moradores foram capacitados e se tornaram coautores do processo. A escadaria do Zé Botinha virou símbolo. E a comunidade, protagonista da própria identidade cromática. O artista Spray Cabuloso assinou os painéis não como visitante, mas como parte do território.
Isso é o que acontece quando uma marca de 60 anos diz em voz alta algo que o Brasil sempre soube: cor transforma, porque aqui ela nunca foi apenas cor: é linguagem, cultura e identidade. Cor muda tudo! Suvinil muda tudo!





