Edição #207

Maria Homem é daquelas vozes que conseguem transformar temas complexos em conversas que atravessam cultura, comportamento e os dilemas do nosso tempo. Psicanalista, escritora e pesquisadora do Núcleo Diversitas da FFLCH/USP, Maria construiu uma trajetória que conecta filosofia, estética e subjetividade, com passagens por instituições como Harvard, MIT, Boston University e Columbia.

Ex-colunista da Folha de S.Paulo e do Valor Econômico, é autora de livros como Lupa da alma, No limiar do silêncio e da letra e, ao lado de Contardo Calligaris, Coisa de menina? e Coisa de menino?.

No novo Procura-se: Uma nova liderança para um novo tempo, Maria olha para as transformações sociais, emocionais e políticas que redefinem as relações de poder hoje, e propõe menos fórmulas prontas e mais reflexão sobre o que significa liderar em um mundo em constante reinvenção.

Vivemos um tempo de excesso de informação, exposição, opinião. Você sente isso na sua própria vida? Como isso te atravessa?

Sem dúvida, né? É um tempo excessivo, de alguma maneira, porque a gente tem tecnologia pra colocar nossa alma pra fora, então, a gente fica se expressando.

Imagina oito bilhões de pessoas falando, pintando, bordando, berrando, vociferando, criando, produzindo coisas maravilhosas, coisas terríveis, coisas irrelevantes. É mais ou menos essa pluralidade que a gente tá vivendo hoje e afeta a todos, por que como separar o joio do trigo? A gente tá só, talvez ainda, nesse momento histórico desse processo, talvez estejamos só consumindo tudo que é produzido.

Então, é maravilhoso, é terrível ou é irrelevante? A gente mistura os três grandes canais. Talvez a gente vá entrar numa época de aprender a fazer a seleção. Quem sabe, né?

O que a vida digital revela e ao mesmo tempo esconde sobre nós

Olha, ela revela claramente qual é a imagem que a gente quer passar para o outro, ou melhor, o trabalho de construção dessa imagem que estamos realizando. O fruto desse trabalho é o perfil, o avatar, aquilo que a gente projeta. Cada um tem um pequeno assessor de imprensa morando dentro de si, um pequeno superego, digamos, que burila a imagem do ego. E isso hoje fica muito evidente, porque está tudo desvelado. É isso que está exposto.

Então, o que fica escondido? O que a gente é. A gente coloca um véu, cria uma imagem. Mas o que será que somos, de fato? Isso aparece até na relação com a plástica, maquiagem, filtros, cirurgias…

Estamos o tempo todo produzindo artifícios. A era do artificial venceu. Da inteligência ao corpo, rosto, peito, bunda. É a era do artifício e talvez fique cada vez mais velado quem a gente realmente é, porque acabamos colando nessa máscara…

Existe um empobrecimento da linguagem na comunicação contemporânea?

A partir do momento em que a comunicação se uniformiza, e passa a usar tantos filtros e tanta vontade de parecer bela, interessante, chique, elegante, disruptiva, mesmo que pelo feio ou pelo exótico, algo se empobrece.

Existe hoje uma disputa no mercado simbólico por espaço, por atenção, por um lugar de aparecer. E isso faz com que tudo fique, ao mesmo tempo, super rococó, super carregado, cheio de apetrechos e peripécias… mas também muito pobre, porque o jogo em si é pobre. O jogo passa a ser o uso desses artifícios que, com o tempo, vão se uniformizando, se pasteurizando. E aí tudo começa a ficar muito parecido.

O que está acontecendo com a nossa capacidade de sustentar o conflito? Onde você percebe isso no seu cotidiano?

A palavra conflito deveria ser muito nobre. Ou conflito, ou debate, ou dialética. Tese e antítese como contraponto. O detalhe é que a gente não está conseguindo formular antítese, ou seja, pensamento para debate. A gente está com excesso de gozo no ódio. A gente ama odiar, a gente ama achar o furo do outro. Talvez estejamos num furor castrante.

A gente tá com uma fúria de apontar a castração do outro, falsamente, né? A gente diz: ‘olha aí, vou cancelar’, porque a pessoa nem entende muito o que está sendo dito e já fala: ‘nossa, falou contra a família, falou contra o amor’.

‘Nossa, então você tem que fazer terapia.‘Você tem que aprender a amar, ser mal comido, isso e aquilo.’ E assim… nem ouviu a argumentação de fato.

Então, se eu já vivi isso? Sim, claro. Esses exemplos que eu acabei de dar aconteceram comigo mesma e acontecem de vez em quando. Eu mesma já fiz uma série — acho que chamei de Contra-ataque — que era para analisar um pouco essas estruturas de ataque.

‘Maria vai lavar uma louça.’ ‘Maria, louca e maconheira.’ Acho muito divertido instituir você num lugar de incompreensão, ou tirar sua racionalidade, ou te colocar na pia, lugar que uma ‘boa mulher’ deveria ocupar. É um pouco essa lógica.

Como debater, então, o que é masculino e feminino? Quais os lugares que ocupamos? O que é branco, preto, rico, pobre? Como fazer um mundo que tenha mais diálogo, mais coesão…

Eu acho que a imagem do Yin e Yang é um dos logotipos mais maravilhosos que a humanidade já inventou. ‘Logotipo’ é uma brincadeira, mas é uma das formas gráficas mais sublimes, e também uma das ideias mais interessantes. Essa ideia de junção e, ao mesmo tempo, de diferença, preservando alguma singularidade.

Existe uma dificuldade maior hoje em lidar com a diferença?

Será que antes era melhor? Porque o que a gente fez para lidar com a diferença foi binarizar, foi uma dualidade. Macho se organiza assim, se veste assim, se comporta assim. Fêmea se veste assado, se comporta assado e obedece o assim do macho. Então, será que era uma boa forma de lidar com a diferença? Não sei se a gente conseguiu, né?

Como pensar o laço social em um contexto de tanta polarização

Talvez agora, justamente, que a gente esteja desconstruindo uma lógica binária é que a gente, paradoxalmente, polariza em excesso o mundo. Então, a gente tem dois grandes grupos: os que, de alguma forma, têm ressentimento da perda desse passado. O luto está difícil de fazer, então, tem uma vontade de regredir, tem uma força regressiva, que se diz conservadora, de conservar coisas. No que talvez a gente pudesse ouvir melhor.

A pergunta é: como poder não só fazer laço, mas como ter escuta, porque, para ter um real laço social, a gente tem que se ouvir. Então acho que a doença principal da nossa era é que a gente já sabe, a gente nem escuta o que está sendo dito, a gente já quer ter certeza.

A gente está no furor da guerra, né? A gente está em guerra.

O que ainda escapa quando tentamos nomear o corpo e o desejo hoje

Olha, talvez a pulsão, como sempre escapou. O impulso primordial. O desejo já é uma maneira de tentar dar nomear.

Mas o desejo raiz, ali, aquele que é inominável, assim como a pulsão e o real do corpo, como diria Jacques Lacan… ah, isso continua a escapar. E aí a gente tenta pôr em palavras. A gente tenta encenar comportamentos, atos, ações e, às vezes, a gente se perde justamente nisso.

Como chegar no que a gente quer? Como fluir? Como poder, mesmo, deixar rolar o que pulsa? Deixar o flow, deixar a pulsão se fazer — se não totalmente transparente para a gente, pelo menos permitir que a gente se deixe tomar por isso. Ter alegria. A alegria do trabalho. Olha que curioso: a alegria do orgasmo, a alegria do encontro, do laço. Esse prazer, essa possibilidade de pulsar. E pulsar junto com o outro.

Na sua opinião, qual é o papel da arte em um mundo saturado de estímulos, e o que ainda te toca de verdade?

Eu acho que, para voltar lá no início, a arte toca, e isso é muito difícil de explicar. Quando há, de fato, um encontro de uma alma com outra alma que está representada naquela obra de arte, algo da vivência humana realmente acontece.

Não é a arte para parecer arte, para ganhar prêmio, dinheiro ou estar na moda, porque isso também pode fazer parte de todo o jogo imaginário do contemporâneo. Mas o tempo acaba garimpando algumas coisas. Não que isso seja justo, porque existe muita grande arte que nem chega a se tornar visível, que fica fora do mercado, que não entrou no acaso de alguém encontrar um baú ou algo assim.

Mas essa arte que estou chamando de ‘real’, que tem alguma densidade, ecoa no coração e permanece. Ecoa na mente porque fala justamente da forma como estamos vivendo as grandes questões humanas — que, afinal, não são tantas assim, nem tão diversas.

É difícil saber o que é a vida, o que é o bem e o mal, como suportar o outro… A gente continua tendo esses mesmos problemas. E também: como sobreviver? Como não destruir o ambiente e não nos destruir junto com ele?

O que você busca quando consome cultura — resposta, deslocamento ou inquietação?

Consumir cultura eu já acho uma expressão maravilhosa. Ela já diz muito sobre o nosso tempo, né? Às vezes eu escuto alguém me dizer: ‘eu consumo muito o teu conteúdo’. Talvez o consumo tenha uma função nobre — o consumo de oxigênio, por exemplo —, mas não sei… talvez porque eu esteja viciada nessa semântica da palavra ‘consumo’, me choca um pouco, me incomoda juntar consumo e cultura, porque isso já mostra que ela entra como um produto que pode ser encaixado em algum lugar.

Resposta, deslocamento ou inquietação? A cultura é tudo isso. Ela é resposta, ela é pergunta, ela coloca a gente num lugar e também desloca desse lugar. Ela dá um insight sobre quem a gente é, um insight sobre quem a gente não é mais — ou não quer ser, mas parece ser — e isso gera inquietação.

Mas, como eu falei antes, acho que a arte e a cultura são, sobretudo, um modo de se irmanar com alguma coisa. Você cria laço com aquilo. Porque a Pietà é a dor de uma mãe. E, ao mesmo tempo, na escultura, é uma mãe tão nova… É a dor de um amor, é perda, é morte, sofrimento. Está tudo ali.

É você estar vivendo agora o que outro viveu e soube representar.

O que mais aparece hoje na clínica que não aparecia antes?

Eu acho que existe uma certa angústia da ansiedade, uma ânsia constante. Vou colocar pelo oposto: a coisa mais rara hoje é estar em presença plena, no aqui e agora. Isso virou quase um artigo de luxo, né? Você estar. Você se permitir ser. Estamos sempre em outro lugar, sempre atropelados, no muito, no excesso. Essa é a aceleração do nosso tempo: o excesso crescente. E essa também é a lógica da internet, do celular, das redes…

Agora, com a inteligência artificial, surge também um sofrimento, quase um duelo humano. Será que vamos desaprender?

Existe um sofrimento do nosso tempo que te afeta também como pessoa, não só como analista?

Todo o meu trabalho busca operar num encontro com o que há de mais consciente no campo do inconsciente. Então, uma alienação, uma não consciência, é algo que me faz sofrer e, ao mesmo tempo, me dá vontade — talvez até uma agonia — de trabalhar nessa direção. Eu acho que, quando a gente pode dizer que a Terra é plana porque ‘é assim que eu vejo’, ou que vacina faz mal porque ‘quem disse que a vacina não está afetando o meu corpo?’, percebemos como existem crenças persecutórias muito fortes. Será que estamos vivendo um delírio coletivo? Uma psicose global, talvez aproveitada por alguns?

A nossa estrutura mental está ficando muito interessantemente complexa. Isso me afeta e, ao mesmo tempo, me coloca para trabalhar, com certeza.

Uma pergunta que te acompanha há muito tempo

“Como, afinal, a gente funciona?”

Acho que, como qualquer criança, eu tenho essa pergunta. Como as coisas funcionam? Tem até vários sites… Como é que o stuff works? Eu acho que eu tenho essa pergunta direcionada pra mente humana. Como é que ela funciona? O mistério da mente, continua a me intrigar.

O que te desestabiliza hoje?

Como eu já mencionei, uma alienação, um embotamento, um emburrecimento. Uma paixão pela ignorância, como diriam Spinoza e Lacan. Existe um apego aí, um apego profundo a isso. E isso realmente me deixa siderada.

Uma ideia que você precisou rever ao longo da sua trajetória

A ideia de gênero, porque isso já foi bem mais simples para mim, inclusive escrevi dois livros sobre o tema com o Contardo Calligaris, e fui estudando mais primatologia, por exemplo, ou biologia. É um assunto muito complexo. É outro tema polêmico que eu acho que vou deixar para outra pergunta.

Algo que você ainda está tentando entender…

Olha, direita e esquerda. Será que esses ainda são os melhores conceitos? Será que a gente não poderia ir além do bem e do mal nesse quesito? Acho até que vou publicar um livro chamado “Além de direita e esquerda”. Estou começando a achar que tudo é muito mais complexo do que a gente vem colocando nesses dois campos.No mínimo, isso já seria um quadrante, né? Com quatro partes

Um livro que vale a pena ler

Estou lendo agora Contos, do Anton Chekhov. Um escritor russo incrível, mestre do conto. Sagaz, ferino, preciso, condensadíssimo. Ao longo da vida, vou lendo e relendo. Me lembro de uma história de uma professora que me marcou muito, quando eu fazia doutorado em teoria literária na USP. Ela leu um conto chamado Brincadeirinha. Foi lendo, lendo, lendo… e começou a chorar no meio da leitura. Foi surreal aquela cena. Acho que eu tinha vinte e poucos anos. Fiquei muito marcada. Desde então, é um autor que, vira e mexe, eu pego para reler. E me alimenta muito. É um clássico, né? Acho que vale a pena ler — ou reler. Então, de vez em quando, eu volto ao Tchekhov.

Um filme que vale a pena assistir

Vou pegar dois clássicos. Teve uma fase em que eu era maníaca pelo Kurosawa. Ele trabalhava mais com cinema, dava aula numa faculdade de cinema. Sempre gostei do Japão — estive lá no ano passado — e havia algo na forma dele narrar que considero profundamente cinematográfica, porque é menos verbal.

Todo o meu trabalho é verbo, verbo, ideia, ideia. Amo isso. Estou em casa e tranquilíssima aqui, há horas respondendo essa longa entrevista. Mas o cinema, quando é realmente imagem… o Kurosawa é isso.

E o Pasolini também é isso. Só que junto de uma filosofia, de uma visão de mundo. No caso do Kurosawa, uma visão menos natural para mim, porque é o outro, é o Oriente. E o Pasolini que traz magia, história, crítica. Talvez eu ficasse com o cinema italiano, com essa metáfora. Algo que também existe no Federico Fellini. Tem magia diferente, no sentido do lúdico, do sonho.

Então esse cinema italiano clássico, também vale muito a pena assistir. Não to falando de filmes, mas de autores que criaram um conjunto de obras possíveis dentro de uma mesma inquietação.

Uma frase que você guarda como norte

Tem um verso do Carlos Drummond de Andrade que, quando li há muitos anos… não vou citar exatamente, mas vou dizer a imagem que ficou em mim: uma flor nasceu no asfalto. Essa é a síntese na minha cabeça. Essa é a ideia que ficou. Depois fui reler várias vezes. A flor é a náusea do Drummond. E é isso: uma flor nasceu na rua. Ela furou. Furou o asfalto, o nojo, o tédio. Essa imagem é tão maravilhosa.

A síntese que permanece em mim é essa flor nascendo no asfalto. Talvez seja isso que ainda dê para a gente fazer. E todo trabalho de consciência, de resistência, de tentar encontrar um ethos, mirar o leme e seguir naquela direção… tudo isso é tão frágil quanto essa flor. E, ao mesmo tempo, tão insistente, tão teimoso.

Eu li pela primeira vez meio distraída e fui totalmente sequestrada por essa imagem. Tanto que, décadas depois, estou eu aqui fechando com ela.

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