Edição #209

Nathália Brandão é autora do livro Cartas a uma Jovem Executiva, lançado pelo selo Harper Business. Durante sua trajetória, conduziu uma pesquisa sobre carreiras femininas em ambientes corporativos, e agora torna pública essa jornada de aprendizagem. Cartas a uma jovem executiva é seu primeiro livro, um oásis de conhecimento em meio à aridez da literatura de negócios voltada para jovens mulheres.

Nathália é head de global education para a América Latina no TikTok/ByteDance.Inc. Reconhecida na lista Forbes Under30, ela iniciou sua trajetória corporativa como trainee em multinacional de bens de consumo.

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Você escreve sobre “regras não ditas” do mundo corporativo. Qual foi a primeira que percebeu, e que ninguém tinha te explicado?

A primeira regra não dita que percebi – errando – é que cultura organizacional, na prática, vai além dos princípios escritos na parede. É preciso decodificar suas entrelinhas para evitar ciladas. Fui entendendo, por exemplo, que, se a estratégia fomenta colaboração, mas os prêmios e reconhecimentos celebram “lobos solitários”, o recado cultural é: “vence o profissional individualista, o competidor”. Se a cultura prega qualidade, mas o rito semanal aplaude quem “lança primeiro”, vence a pressa e aqui o recado cultural é: “feito é melhor do que perfeito”. Ou seja, pode existir diferença entre o que é declarado versus recompensado. E é importante se atentar desde o início. 

No Cartas a uma jovem executiva, discutimos como organizar esse olhar a partir da “cebola cultural” do antropólogo holandês Geert Hofstede:

Existe algo no ambiente corporativo que continua sendo especialmente difícil para mulheres jovens?

Sim. Um exemplo é saber fazer uma boa negociação para a remuneração de entrada.

Lembro-me de descobrir que muitos dos meus pares haviam negociado melhor a oferta inicial, e eu não. No afã de começar o desafio, nem cogitei essa possibilidade. Pouco depois, entendi que uma má negociação de entrada deixaria efeitos em todos os próximos passos ali. Isso porque, em muitas empresas, aumentos, promoções e bônus são calculados também a partir do salário que você já recebe. Então, uma diferença aparentemente pequena na largada pode se transformar em uma diferença significativa ao longo dos anos. Efeitos compostos.

Isso ainda é pouco pautado, pois existe um tabu ao falarmos de dinheiro, então trouxe no Cartas a uma jovem executiva um caminho que me ajudou bastante nas negociações seguintes - o BATNA: 

Fonte: Harvard Negotiation Project

Fonte: Capítulo Capital Financeiro, Cartas a uma Jovem Executiva (Harper Business, 2026)

Outro obstáculo é conseguir “sponsors”, líderes que defendem sua carreira nas principais salas de decisão. Esse tipo de apoio tem um enorme impacto positivo na carreira, mas tende a ser mais difícil de conseguir no início. 

O que é diferente da mentoria que faz parte das relações privadas: aquelas em que o apoio acontece de modo mais reservado e centrado no aconselhamento direto. Já nas relações públicas, a rede de apoio expõe seu nome e seu trabalho em ambientes visíveis, como é o caso da defensora (ou sponsor) que é quem advoga publicamente por você, defendendo uma promoção ou um aumento, especialmente quando você não está presente para fazer isso.

Existe uma diferença entre sucesso visível e sensação real de realização?

Eu acredito que é frágil depositar na mão da validação externa o seu sentimento de realização. Inclusive, observando colegas e a mim mesma, noto um padrão: períodos de grandes conquistas muitas vezes podem vir acompanhados de vazio, exaustão ou desencaixe. Talvez porque o reconhecimento vem do que fizemos, enquanto a realização está mais ligada à forma como fazemos, sabe? Minha realização, por exemplo, está no ato de criar, no processo, na descoberta, em etapas que são muito anteriores ao “sucesso visível”. Então, sim, entendo que há uma diferença. 

O que você gostaria que tivessem te dito no início da carreira, mas ninguém disse?

Tudo o que está escrito no Cartas a uma jovem executiva! 😉 

Spoiler: nos seus primeiros 5 anos de carreira, entenda como funcionam os 5 capitais abaixo:

Fonte: Cartas a uma Jovem Executiva (Harper Business, 2026).

O que você espera que uma leitora encontre em Cartas a uma jovem executiva além de orientação profissional?

Uma companhia para essa travessia um tanto turbulenta e solitária. Além, é claro, de novas referências, que vão de livros a filmes e estudos interdisciplinares. A proposta do Cartas a uma jovem executiva foi tornar público meu processo de aprendizagem. Por isso, não é um livro de respostas prontas ou receita de bolo (aliás, quem tiver, compartilha comigo?); o que compartilho são questões, estudos e ideias para a leitora refletir a partir delas! 

Uma insegurança que ainda aparece mesmo depois de tantas conquistas

Exposição. 

Confesso que tenho pavor de me expor. O ato de escrever um livro, falar em público ou abrir certas questões aqui na newsletter, por exemplo, me dá a sensação de estar nua em praça pública. Ainda assim, enfrento esses medos. Isso porque tenho entendido essa insegurança como parte de um espectro maior: o autoboicote. É como se minha mente “digladiasse” entre ser minha areia movediça ou mola propulsora, todos os dias. Se eu não me policiar, caio na areia movediça. Consciente disso, fui criando mecanismos para lidar melhor com essa dinâmica: como a ‘Natônica’, por exemplo. A Natônica é meu alter ego destemido, que costuma aparecer quando preciso dar um passo que me assusta, rs. Uso com moderação!

Uma ideia sobre sucesso que você precisou desaprender

Revisitar “sucesso” é minha empreitada do momento. Ainda não tenho a nova resposta. Mas o que tem sido insustentável para mim é provar que um “leão sabe nadar”. No meu caso, passei um bom tempo tentando me encaixar em modelos profissionais de sucesso. O preço disso foi me sentir, algumas vezes, um leão provando que sabe nadar bem, em lugares e funções descoladas do meu poder criativo. Isso se esgota no tempo. A escrita do livro Cartas a uma jovem executiva foi um primeiro passo nesse novo terreno do que acredito ser “sucesso”: na obra, trato de uma dor coletiva da qual comunguei: a falta de informação sobre início de carreira. E isso foi feito a partir de uma habilidade pela qual sou apaixonada, a escrita, materializando uma tese de pesquisa que me deu muito tesão de mergulhar. 

No capítulo sobre capital cultural, trago o conceito de “colcha de retalhos”, que é criar uma ideia ou um ofício a partir dos retalhos que formam nossa verdadeira identidade. O Cartas a uma jovem executiva tem apontado esse caminho. Quem sabe não volto aqui, daqui 1 ou 5 anos, para te contar do que se trata esse novo conceito de “sucesso”? 😉

Como decidiu que o seu próximo livro seria um romance

Looonga história. 

As leitoras céticas podem pular essa, ok? Mas tudo começou com um sonho – ou pesadelo? – que tive. Sonhei que descia uma escada espiral vermelha em um subsolo coberto de papeis escritos à mão. No chão, nas paredes, no teto. No último degrau da escada, alguém me entregava um calhamaço de folhas. Acordei assustada, com o sonho nítido na memória. Na mesma semana, fui à Itaperuna, minha cidade natal, e minha avó Heloíza compartilhou uma caixa com as cartas da minha bisavó. As cartas eram muito parecidas com as folhas do sonho. A ideia começou a germinar daí…

Um filme que vale a pena assistir

Esse filme me emocionou tanto que não consegui dar linguagem ao que senti assistindo. Conversando com um amigo, o Gabriel, sobre Hamnet, ele trouxe um veredicto bonito. Segundo ele, esse é o poder da arte: sublimar algo tão doloroso, o luto, em uma experiência catártica universal. E trazendo Simone de Beauvoir para a conversa: “toda dor dilacera, mas quem a vive tem a impressão de estar separado do mundo. Partilhada, a dor deixa de ser um exílio. Através da linguagem, ela ultrapassa seu caso particular e comunga com toda a humanidade.”

Um livro que vale a pena ler

Esse foi o único livro que me fez berrar. Sem mais. 

Um perfil de rede social que vale a pena acompanhar

Eat Your Nuts 😉

Um lugar secreto em São Paulo

O Retiro de Escrita, da Indigo Ayer (@indigo_hoje). Fica a 60km da capital e é um bosque encantado para a imaginação:

Um sonho (literal ou simbólico) que ainda mexe com você

Morar na Ásia. 

Um conselho que vale a pena repetir

Seja gentil, pois todo mundo está travando uma dura batalha.

Cresci com meu avô dizendo isso. Mas parece que a autoria é de Platão (?).

Um detalhe da vida que você acha subestimado

 Silêncio.

Tem uma analogia que apreendi na biografia do Leonardo da Vinci que é a seguinte: ele estudava pássaros e descobriu que a língua do pica-pau pode se estender por mais que o triplo do comprimento de seu bico. Ela serve para pegar larvas dentro da árvore, mas não só para isso: quando o pássaro bate o bico repetidamente contra a casca de uma árvore, a força exercida em sua cabeça equivale a dez vezes aquela necessária para matar um ser humano. E é aí que a língua entra. Sua língua bizarra, quando não utilizada, se retrai para dentro do seu crânio e serve como amortecedor, protegendo o cérebro do choque. Por analogia, levo comigo o seguinte: em tempos de forte pressão, guarde a língua para proteger sua mente. Silêncio…

Uma pergunta que você se faz constantemente

Estou no caminho certo?

Uma frase que você guarda como norte

Faça o trabalho que você quer ver pronto

– Austin Kleon.

Se pudesse jantar com duas personalidades históricas, quem escolheria?

Posso escolher três? :) Leonardo da Vinci, Clarice Lispector e Hermann Hesse. Leonardo da Vinci, porque sou fascinada por entender a cabeça dos polímatas. Ele era um homem tanto das artes quanto da ciência e da engenharia, obcecado por detectar padrões que interligavam os diferentes saberes; por isso, mergulhou em estudos nos campos da anatomia, pintura, engenharia mecânica, geologia, dinâmica das águas, pássaros e por aí vai. Quanto à Clarice, adoraria presenciar o seu traquejo social. Algo me diz que, com toda sua profundidade de alma, interações sociais deviam ser insuportáveis para ela. Bom, dependendo de quem estiver à mesa. Talvez ela tivesse uma reação surpreendente na frente de Hermann Hesse. Clarice leu O lobo da estepe aos 13 anos e disse que se “espantou” com a obra: foi ali que o autor virou uma referência para ela. Quanto a mim, fico curiosa com as perguntas que da Vinci faria aos dois escritores e quais padrões extrairia dali. Ah, e não pouparia Clarice de perguntas sobre a escrita de Uma Aprendizagem ou o livro dos Prazeres; e Hesse, sobre Demian – duas obras que me reviraram.  

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