
Edição #212
Kaoru Hirano,artista japonesa de Nagasaki, cria instalações a partir do ato de desfazer e reconstruir roupas antigas, guarda-chuvas e outros materiais, fio por fio. Seu trabalho explora a memória individual, bem como relações sociais e históricas.
Obteve doutorado pela Universidade Municipal de Hiroshima (2003) e realizou residências artísticas em Nova Iorque e Berlim com o apoio do Programa Artístico Japão-EUA e da Agência de Assuntos Culturais do Japão, além da bolsa de apoio da Pola Art Foundation (2010). Em 2025, recebeu uma bolsa de apoio da Fundação Adolph e Esther Gottlieb, atuando nacional e internacionalmente
Em sua primeira visita ao Brasil, Hirano esteve em São Paulo para a montagem da exposição "Shiro, uma escala de nuances”, inédita e gratuita na Japan House até 25 de outubro. A mostra aborda a cor branca (Shiro, em japonês) apresentando suas nuances e simbologia por meio de quatro elementos: a neve, o papel, a seda e o sal.
Para o núcleo de Seda, a artista apresenta uma obra produzida especialmente para a exposição feita com um juban (peça de vestuário tradicional japonesa usada por baixo do quimono), de sua avó paterna, falecida em 2018. Em uma espécie de teia suspensa a instalação “untitled-grandmother" reflete sobre memória afetiva e os laços construídos (e desconstruídos) dentro dessa relação familiar.
Você trabalha frequentemente a partir de roupas que carregam histórias. O que uma peça de vestuário consegue preservar que uma fotografia não preserva?
A fotografia registra um instante, um recorte da luz em determinado momento. Já o tecido acumula o próprio tempo. Por estar em contato tão próximo com o corpo, ele absorve inúmeras camadas de existência. Sou tão atraída pelo tecido porque ele permite tocar em temporalidades que não podem ser expressas apenas por palavras.
O juban utilizado em "untitled-grandmother" pertenceu à sua avó. Em que momento essa peça deixou de ser apenas uma lembrança familiar e se tornou matéria para uma obra?
Não tenho a sensação de que o juban da minha avó tenha deixado de ser apenas uma lembrança de família para se tornar material de uma obra. O ato de desfiar, fio por fio, uma peça de roupa que ela vestia foi também uma forma de buscar por sua presença. Mesmo transformado, ele continua sendo, para mim, não apenas um material, mas a própria existência da minha avó na forma de uma veste vazia.

untitled-grandmother / Créditos Ricardo Amado
Ao desmontar uma peça, você sente que está destruindo ou revelando algo?
Diria que esse processo se aproxima mais de uma escavação. Ao desmontar uma roupa, revelam-se estruturas e vestígios que até então permaneciam escondidos nela. Ao mesmo tempo em que algo desaparece, aquilo que estava invisível começa a emergir.
O que a seda permite dizer que outros materiais não permitem?
Os fios de seda desse juban são extremamente finos. Sempre que eu soltava um deles, ele se enroscava delicadamente em minha mão e acabava se entrelaçando aos demais, como se quisesse voltar ao estado de casulo do bicho-da-seda. Um dia, esse casulo envolveu o corpo do inseto; depois, em formato de juban, envolveu o corpo da minha avó. Nesses fios coexistem os tempos de duas vidas: a do bicho-da-seda e a dela.

covering emptiness
Sua instalação transforma um objeto íntimo em uma experiência coletiva. O que muda quando uma memória pessoal passa a ser compartilhada por desconhecidos?
Esta obra tem como ponto de partida uma pessoa muito concreta: a minha avó. No entanto, seu rosto e sua voz nunca são apresentados para o público. O que permanece é o juban desfeito, os fios e os vestígios do tempo. Embora a presença de minha avó permaneça, a obra se torna um espaço para que cada pessoa reflita sobre suas próprias experiências de perda, tempo e memória. O que permanece não é especificamente a figura dela, mas a experiência universal de buscar por alguém que já não está mais presente.
Existe algo que você descobriu sobre sua avó durante o processo de criação dessa obra?
Mais do que descobrir algo sobre minha avó, percebi a imensidão de tudo aquilo que jamais poderei conhecer a seu respeito. Essa distância também é um dos elementos presentes na obra.
A delicadeza está muito presente no seu trabalho. Você acredita que delicadeza e força são qualidades opostas ou complementares?

untitled-grandmother / Créditos Ricardo Amado
Para ser sincera, não sei exatamente o que define delicadeza ou força. Sempre fui atraída por coisas que possuem ambas as características, capazes de ser extremamente delicadas e fortes ao mesmo tempo. E é essa característica contraditória que procuro criar com as minhas obras.
Muitos dos seus trabalhos parecem existir entre presença e ausência. O que te interessa nesse espaço intermediário?
Mesmo que as pessoas não estejam mais presentes, os vestígios da vida que viveram e de quem foram permanecem nos objetos e lugares. E é justamente por essa ausência que continuamos sentindo a presença delas. Tenho a impressão de que a essência da existência está escondida nesse espaço entre as duas coisas.
Como você sabe que uma peça foi desconstruída o suficiente?
Quando a forma original e funcionalidade desaparecem, permanecendo apenas a memória e o tempo inscritos naquele objeto.
O tecido guarda o formato do corpo que o vestiu. O que te fascina nessa capacidade dos materiais de acumular vestígios?

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Acho maravilhoso poder sentir a presença de quem vestiu uma peça em um tecido, mesmo depois que essa pessoa já não está mais ali.
No Japão, o branco carrega significados que vão além da ideia ocidental de pureza. O que essa cor representa para você hoje?
Brilho.
Existe alguma lembrança da infância que continua aparecendo no seu trabalho, mesmo quando você não pretende falar sobre ela?
Minha mãe costura, e quando eu era criança, era ela quem fazia as roupas que eu usava em dias especiais. Lembro-me até hoje das noites em que ela costurava em um quarto escuro enquanto eu me preparava para dormir, do som do pedal da máquina e do cheiro do ferro de passar. Minha avó, por sua vez, costurava quimonos, e acredito que esse juban também tenha sido feito por ela. Desde muito nova observava de perto todo o processo de transformar um tecido em roupa. Talvez, inconscientemente, ao tocar em um tecido, esteja retornando a essas lembranças.

untitled -heart hinomaru-
Você trabalha com fios, tramas e conexões. Que tipo de vínculo humano mais desperta sua atenção atualmente?
Quando minha avó faleceu, em 2018, tive contato com pertences que me permitiram conhecer aspectos da vida dela que eu desconhecia. Mesmo após a morte, alguns relacionamentos transcendem o tempo e a distância, e continuam existindo por meio dos objetos que ficaram e das memórias que carregamos. Ultimamente, são essas conexões humanas que atravessam o tempo, a distância e até mesmo a morte, que despertam o meu interesse.
Um objeto comum que você nunca conseguiria descartar.
Objetos que pertenceram a pessoas que já se foram, além de fotografias antigas
Algo que o ato de costurar ou desmontar roupas te ensinou sobre as relações humanas.
Que existe uma relação que permanece, mesmo transcendendo o tempo e a distância.
Uma artista, escritora ou pensadora que acompanha você há muitos anos.
Glenn Gould.
Um livro que costuma recomendar

Não costumo recomendar livros com frequência, mas "A Câmara Clara: nota sobre a fotografia", de Roland Barthes, é uma obra à qual sempre volto.
Uma palavra japonesa que não possui tradução exata para o português, mas que considera importante.
Kehai
Nota do tradutor: Kehai significa uma presença sutil, algo que não se vê, mas cuja existência pode ser sentida.
Algo que você ainda gostaria de descobrir através do seu trabalho
Gostaria de continuar descobrindo até onde os objetos conseguem revelar a existência de algo ou alguém através do tempo e da distância

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