Edição #214

Juliana D'Andrea (JUPITER) é artista visual, designer gráfica e educadora, graduada em Comunicação Social, com especialização em Direção de Arte pra Cinema, Design Gráfico e Arteterapia. Facilita oficinas criativas desde 2018 e, em 2025, criou o Corta y Cola (curso de colagem manual, digital e criatividade) que já reuniu mais de 300 alunas. Também produz conteúdo sobre criatividade e processo artístico (incluindo a newsletter Fluxo Criativo e seu canal no Youtube) e trabalha com marcas, agências e editoras, sempre na busca de que, com simplicidade, técnica e coragem, dá pra criar algo poderoso e autêntico. 

"No fundo, sou só uma pessoa obcecada pelo ato criativo, pela poética das imagens e pela busca das transformações."

Você costuma dizer que vive tentando entender o que acontece quando duas imagens se encontram. O que acontece quando duas ideias aparentemente incompatíveis se encontram?

Acho que quando vejo duas imagens ou ideias se encontrando é quase como uma colisão. Uma nova forma de enxergar a partir de contrastes e novas possibilidades. Me trás a percepção da criação crua e da transformação. Tudo fica mais interessante quando unimos as diferenças, saindo do padronizado e pasteurizado para que exista o novo. 

Existe algum tipo de imagem que você simplesmente não consegue recortar?

Não curto muito recortar mãos e pés, porque sempre acabo me frustrando no caminho desse tipo de recorte muito detalhado, achava que me faltava paciência (risos) mas com isso fui percebendo que na verdade minha técnica mora mais na criação da composição e no olhar que faz o recorte, do que no recorte perfeito em si. É isso que é legal no processo criativo: o que te frustra ou te dá uma certa preguiça pode ser um sinal de caminho criativo, um direcionamento também do que faz sentido pra você. Acolher isso é importante.

Qual é a diferença entre acumular referências e construir repertório?

Acho que acumular referências é como ler vários livros sobre viagem e nunca ir viajar. Construir repertório é fazer a viagem e tirar as suas próprias conclusões. Os dois podem se complementar, mas nada substitui a experiência. 

Você escreve, desenha, cria identidades visuais, ministra oficinas e produz arte. Em qual dessas atividades você sente que pensa com mais liberdade?

De alguma forma a liberdade tá presente dentro de todos os meus trabalhos. O que não significa que não tenha limites... e eu sei que pode parecer contraditório, mas dentro das minhas limitações sempre me encontro num estado de liberdade pra imaginar e criar. E é exatamente por ter essa necessidade de liberdade tão forte que eu escolhi ser autônoma e seguir um caminho independente… não é fácil bancar isso, mas foi o que escolhi. A liberdade é linda, mas também exige muita auto consciência e responsabilidade. 

Você acredita que criatividade depende mais de repertório ou de treino?

Das duas coisas. O repertório se constrói vivendo e experienciado… Mas a criatividade exige o compromisso da prática diária, a confiança de abrir espaço para o erro e a coragem de se entregar ao sagrado risco do acaso. Se você não praticar afiar o olhar diariamente, uma hora ele vai ficar cego e aí pra afiar de novo leva um tempo… 

O que uma boa composição tem em comum com uma boa conversa?

Como uma boa conversa, ela te leva sempre pra algum lugar. Você nunca sai sendo a mesma que entrou. Ela fica ecoando na sua mente por um tempo, talvez passe anos e você ainda vai estar reverenciando aquele encontro que te transformou de alguma forma. Acho que a arte é isso, uma boa composição é isso e uma boa conversa também. 

Qual foi a última imagem que fez você parar alguns minutos?

Tem uma série de artes da Ellen Gallagher que indiquei recentemente na minha newsletter também, se chama “DeLuxe”. Me chamou a atenção o uso da massa de modelar, os contrastes e, claro, o uso da colagem. Ela tá falando sobre construção de identidade, usando elementos vivos de coisas que influenciam nosso comportamento (revistas antigas, publicidade, design). A colagem entra aqui como uma linguagem poderosa pra recortar essas histórias e ressignificar. Isso me interessa muito.

Você acha que hoje olhamos rápido demais?

Observo que hoje, mais do que olhar rápido demais, estamos olhando muito pras mesmas coisas. Deixando que outras pessoas decidam o que devemos olhar ao invés de buscar ativamente por algo. Isso é perigoso. Porque vai aos poucos tirando nosso poder de escolha (e escolher é recortar! é transformar! é criar!). 

O algoritmo mudou a maneira como você cria ou apenas a maneira como você publica?

Acho que mudou sim… e pra todo mundo, né? Principalmente no Instagram. Mesmo você achando que tá seguindo no seu ritmo, já somos tão influenciados e consumidos por algoritmos que fica difícil sair ileso.

É muito ilusório e inocente quem tá dentro da internet (principalmente trabalhando no digital) falar que não. Mas entendi desde muito nova que precisava saber das regras pra quebrar as regras também. Então, tento buscar pelo caminho do meio. Sempre honrando aquilo que faz mais sentido pra mim. Não vou deixar o algoritmo limitar aquilo que sinto de criar e expressar no mundo. Mas aí entendo que preciso bancar essa decisão de andar na contra mão também. Faz parte… 

Você ensina centenas de pessoas a fazer colagem. Existe algo sobre criatividade que ninguém consegue ensinar?

Acho que dá pra ensinar tudo, mas não dá pra fazer pela pessoa (risos) meio óbvio, mas é real.

Muitas pessoas querem aprender sem ter que passar pelo processo. Querem a liberdade criativa, sem ter a responsabilidade e o compromisso. Até sobre isso de disciplina, organização e compromisso dá pra ensinar, mas de novo, a ação no mundo quem deve fazer é você. E isso requer coragem e muito ‘sangue nos zóio’.

Na minha geladeira você sempre vai encontrar

Tofu e muitos imãs de geladeira aleatórios, a maioria de viagens, mas alguns com fotos, rabiscos, anotações de mercado, essas coisas.

Um gesto cotidiano que considera profundamente criativo.

Respirar. Literalmente. Quanto maior a inspiração, maior será a expiração. 

Um filme que vale a pena assistir

São tantossss! Mas vou falar de um que vi recentemente do Park Chan-wook “A única saída”. São muitas camadas dentro de um único filme, é maravilhoso.

disponível no Mubi

Um livro que todo mundo deveria ler

O mundo assombrado pelos demônios, Carl Sagan.

Esse livro me ajudou a sair de uma ressaca pós era misticona Tim Maia Racional, lá em 2020 (risos), me fez enxergar além e trazer um equilíbrio muito importante na minha vida... honrando os mistérios, mas entendendo a importância de resgatar os valores da racionalidade num mundo dominado por superstições e explicações pseudocientíficas. Acho que é um daqueles livros que todo mundo deveria ler um dia!

Um artista que gostaria de colecionar

Eu amo como ela mistura mitologia, feminismo e afrofuturismo pra explorar identidade, o corpo e história cultural. Ela começou com a colagem e depois misturou materiais pra expandir seu processo (isso me inspira muito!).

É muito interessante ver como toda artista que já criou colagem tem um olhar muito diverso no sentido técnico e busca algo mais livre mesmo. Acho que com a Wangechi Mutu isso fica bem perceptível, como a colagem possibilitou um caminho de expansão criativa e artística. Isso é maravilhoso!

Uma pergunta que gostaria que te fizessem mais


Qualquer uma que envolva The Doors seria uma boa desculpa pra eu ficar falando da minha banda favorita. E ela literalmente abre portas pra falar de filosofia, poesia, música, arte, vida… ou seja, tudo. 

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