Edição #224

Bernardo Precht é founder com exit de empresa listada na Nasdaq, Sloan Fellow pelo Stanford MSx e Board Member da Brazil at Silicon Valley. Hoje, apoia empresas em crescimento na agenda de transformação com AI.

Médico de formação, estava a um ano de concluir a residência em São Paulo quando decidiu mudar de rumo. Frustrado com os limites do sistema de saúde e a dificuldade de entregar cuidado em escala, percebeu que seu caminho era outro. Foi construindo e escalando a Beyond Medicine, negócio na área da saúde que cofundou e mais tarde vendeu, que descobriu o que realmente o fazia feliz. Esse insight o levou ao Stanford MSx, onde buscou ampliar sua bagagem em finanças, gestão e liderança.

O que você sabe hoje sobre construir uma empresa que teria sido muito útil para o Bernardo de 25 anos?

É engraçada essa pergunta porque eu consigo pensar em várias coisas que seriam úteis para o Bernardo de 25 anos. Desde ser muito intencional com a busca de talentos e o estilo de cultura que você quer construir dentro da empresa. Mas sabe uma coisa que o Bernardo de 25 anos tinha que o de 33 não tem? Ingenuidade. E vou te falar? Ela faz falta de vez em quando. Experiência é muito bom, mas você começa a ver problema/furo em tudo. Às vezes sinto falta de ingenuidade.

Existe uma ideia de sucesso que você precisou desaprender?

Acho que sobre desapegar de ter as respostas que preciso no início. A jornada é ambígua e a linha é muito tênue entre excesso de convicção e a convicção necessária. Outra coisa muito importante, parar de medir as pessoas com sua própria régua, principalmente seus sócios. Normalmente em sociedade a gente busca complementaridade e se você tá sempre medindo o outro pelas suas qualidades você distorce um pouco a coisa.

O que é mais difícil: começar algo do zero ou saber a hora de deixar algo que você construiu?

Sem dúvida nenhuma a segunda. É muito doloroso para mim matar um projeto e fazer a via sacra que envolve isso ainda por conta de um viés psicológico que se chama falácia do custo afundado. Pelo fato de ter colocado energia, tempo e dinheiro, você começa a contar histórias na sua cabeça para continuar tentando.

O que um cirurgião aprende sobre tomada de decisão que um empreendedor deveria saber?

Você ressignifica os stakes de uma decisão. A maior parte dos erros em negócios são reversíveis e o impacto (quando acontece) são financeiros. Com a barriga aberta de alguém na sua frente a história é outra…

Na cirurgia, existe pouco espaço para ego: o corpo do paciente é o que determina se sua hipótese estava certa. O que o empreendedorismo te ensinou sobre estar errado?

Eu lembro de uma história de uma discussão societária supercomplexa que tive com meus sócios. Quase chegamos a romper. E eu realmente tinha meus pontos de razão, eles eram genuínos na minha cabeça. Mas, às vezes, ter razão é diferente de estar certo. Se eu quisesse fazer valer o meu ponto, provavelmente a empresa morreria e, com certeza, não teríamos a bela amizade que temos até hoje. Que se dane ter razão.

Você escreve sobre IA como alguém que está tentando entender o fenômeno de dentro. O que hoje está sendo superestimado, e o que está sendo subestimado?

Superestimada é a velocidade de absorção da tecnologia pelas organizações. É muito mais complexo do que parece, uma vez que o comportamento humano é muito mais moroso que o time de produto da Anthropic.

Subestimado é o quanto ela pode atrofiar nossa capacidade crítica, se deixarmos. Quanto mais eu uso AI e ela avança dentro da minha rotina, mais eu fico preocupado com a minha capacidade de pensar (estou, de propósito, respondendo a todas as perguntas aqui sem nenhum LLM, perdoem meus erros de português e de acentuação). Parece uma academia: está cada vez mais difícil pegar o Google Docs “seco”.

Você tem observado uma espécie de “corrida para construir” no Vale do Silício. Estamos usando IA para ganhar tempo ou apenas para aumentar a quantidade de coisas que fazemos?

O segundo. A barra só sobe e todas as tecnologias que nos prometeram poupar tempo apenas comprimem o tempo de uma atividade para dar espaço a outra. Nunca ninguém me contou que agora tem mais tempo livre para curtir uma tarde no parque porque tem uma lava louça instalada na casa.

O que você acha que continuará sendo uma vantagem humana quando máquinas forem melhores do que nós em boa parte do trabalho intelectual?

Acho que vamos continuar valorizando a presença humana. Mesmo quando tivermos robôs humanóides que fazem tudo que fazemos (ou melhor), ainda acredito que uma risada genuína na mesa de jantar entre amigos vai continuar sendo especial.

Se pudesse apostar em uma mudança provocada pela IA que vai parecer óbvia daqui a dez anos, qual seria?

Aumento do diagnóstico de desordens psiquiátricas.

O que você faz quando precisa desligar seu cérebro — justamente o contrário do que seu Instagram parece defender?

Adorei a pergunta. Um pedal ou algum esporte ao ar livre. Também voltei a gostar de livros físicos para dar um outro estímulo ao cérebro longe das telas. Passo muito tempo em celular / computador.

O que te dá mais curiosidade fora de medicina, tecnologia e negócios?

Gastronomia.

Uma coisa que você mudou de opinião radicalmente nos últimos cinco anos:

Espiritualidade. Eu achava que era perda de tempo.

Cheguei num ponto da vida em que atingi muitas coisas que eu não achava que eram possíveis, ou que eu esperava atingir com muito mais idade. E ter atingido essas coisas não me preencheu da forma que eu esperava. Pelo contrário: muitas vezes me senti incomodado, ansioso, com um vazio. A espiritualidade busca preencher esse espaço que eu já percebi que, com certeza, não vai ser preenchido com mais conquistas profissionais. Mas sendo bem sincero é um belo work in progress. Estou todo dia tentando construir e fortalecer minha fé. E o que eu mais tenho dificuldade é aceitar que não vou controlar tudo e deixar na mão Dele.

O que você ainda não sabe fazer, mas gostaria muito de aprender?

Dizer não sem ficar sofrendo. Eu adoraria conseguir adotar aquela filosofia de que se não é um sim claro, a resposta é não…

Qual foi a última coisa que te fez mudar de ideia?

Definir onde quero morar e com quem quero empreender para então definir o business. A ordem importa.

Um livro que mudou a sua forma de pensar

Esse livro me pegou porque ele mostra um cara enfrentando a própria mente e o próprio corpo com a descrição mais visceral e vulnerável que já ví. E me trouxe paz. Até se correlaciona com a resposta da espiritualidade. No fim do dia somos todos seres desesperador por alguma racionalidade e sentido.

Uma pessoa que você gostaria de passar o dia acompanhando de perto

Eu acho que é muito louco você normalizar o fato de que uma empresa e uma pessoa mudou o comportamento de bilhões de seres humanos na medida de que tornamos natural abrir um dos espaços mais sagrados que é nossa casa para seres desconhecidos. Os conceitos de design e de produto do Airbnb são do mais alto nível que já ví.

Uma tecnologia que você acha fascinante

Full self drive da Tesla.

Uma tecnologia que te preocupa

Redes sociais.

Um hábito que vale cultivar

Cuidar do seu casamento/relacionamento.

Um lugar onde você pensa melhor

Na verdade o lugar pra mim é um momento, de manhã, longe de notificações e do meu celular, com um café sem pressa em uma manhã de sábado.

Uma pergunta que você se faz com frequência

Essa atividade é a melhor alocação do meu tempo?

Uma coisa que as pessoas presumem sobre você e está errada

Que eu tenho uma boa memória. Ela é péssima, assim como minha raw intelligence. Sou bem medíocre.

Se você não fosse médico nem empreendedor, seria

Escritor.

O superpoder que você gostaria de ter

Saber silenciar a agitação da minha mente.

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