
Edição #226
Tamara Stief criou uma nova linguagem na comunicação de imóveis agregando narrativas e humor, desconstruindo a formalidade que dominava o setor. Com mais de 395 mil seguidores em seu Instagram, Stief estabeleceu uma comunidade apaixonada por casa com cara de casa enquanto apresenta apartamentos em seus reels na rede social. Ela é fundadora da imobiliária Tamaras e da Casa Maramores, espaço offline que abraça o universo criado pela corretora online.
O que é a Casa Maramores?
A Casa Maramores é um lugar que nasceu da vontade de fazer diferente. É uma mistura de imobiliária, casa, galeria, encontro, arquitetura e, principalmente, ideias. Eu não queria criar só um lugar para vender imóveis. Queria criar um lugar onde as pessoas tivessem vontade de entrar, ficar, conversar e descobrir coisas. A casa acabou virando uma extensão do meu olhar sobre São Paulo e sobre como a gente escolhe viver.

Em que momento você percebeu que um imóvel também pode ser uma narrativa, e não só metragem e planta?
Acho que isso veio com o tempo. Eu trabalho há muitos anos com imóveis e percebi que as pessoas não compram 180 metros quadrados. Elas compram uma possibilidade de vida. Compram a luz daquela sala, a vista, o bairro, a mesa onde vão receber os amigos, a escola que o filho vai frequentar, o café da manhã de domingo. A planta é importante, claro. Mas ela não conta tudo.
O que um apartamento revela sobre quem vive nele, mesmo antes da pessoa chegar?
Tudo. A casa entrega muito da pessoa. O jeito que ela organiza os espaços, os livros, a arte, a cozinha, até o que ela escolhe deixar à vista. Às vezes entro em um apartamento e penso: “já entendi essa pessoa” e às vezes penso: “essa pessoa está tentando ser alguém que não é”. A casa é um retrato muito honesto.
Qual a diferença entre “vender um imóvel” e “contar uma história”?
Vender é falar “tem três suítes, duas vagas e 220 metros”. Contar uma história é explicar por que aquele apartamento é especial. É fazer alguém imaginar a vida ali. No fim, imóvel é patrimônio, mas também é desejo. E desejo não cabe numa ficha técnica.
Você trouxe humor e linguagem mais direta para um mercado formal. O que isso destravou?
Destravou conversa. O mercado imobiliário sempre foi muito sério, cheio de palavras difíceis e aquela coisa meio “imóvel de alto padrão com excelente localização e acabamentos sofisticados”. Eu acho isso muito chato. Risos. Eu prefiro falar como as pessoas falam. Se é lindo, eu digo que é lindo. Se é estranho, eu digo que é estranho. Se é caro, é caro. A honestidade aproxima.
O que o mercado imobiliário ainda não entendeu sobre comunicação hoje?
Que ninguém quer mais ser tratado como cliente o tempo inteiro. As pessoas querem se identificar. Querem informação, mas querem personalidade também. Hoje você pode saber tudo sobre um imóvel em dois minutos. O que faz você parar é a maneira como aquela informação chega.
Você construiu uma comunidade baseada em transparência. O que as pessoas mais temem quando pensam em comprar um imóvel?
Errar. Acho que esse é o maior medo. Comprar um imóvel envolve muito dinheiro e muita emoção. A pessoa tem medo de pagar caro, de descobrir um problema depois, de escolher o bairro errado, de se arrepender. E tem uma coisa importante: ela também tem medo de ser enganada. Por isso eu acho que transparência não é diferencial. Deveria ser obrigação.
Existe algo na forma como consumimos imóveis hoje que é pouco racional?
Tudo. Risos. Imóvel é uma das compras menos racionais que existem. A pessoa pode entrar num apartamento, ver uma cozinha maravilhosa, uma árvore linda pela janela e falar: “é esse”. Cinco minutos depois, esqueceu metragem, condomínio e até o preço. A emoção entra muito antes da planilha.
O que faz alguém se sentir “em casa” antes mesmo de morar?
A sensação de pertencimento. Pode ser uma luz, uma janela, um cheiro, uma cozinha que dá vontade de usar, uma árvore, um silêncio. Às vezes é uma coisa completamente inexplicável. Você entra e pensa: “eu moraria aqui”. Acho que esse sentimento vale muito.

Existe um limite entre informar e entreter nesse tipo de comunicação?
Eu gosto de chegar bem perto desse limite. Informação precisa estar ali, mas se ninguém prestar atenção, ela não serve para nada. Eu acredito que você pode falar de mercado, preço, arquitetura e investimento sem transformar tudo numa aula chata.
O que São Paulo revela sobre quem escolhe viver nela?
São Paulo revela que a pessoa quer movimento. É uma cidade para quem gosta de possibilidade. Você pode sair de manhã para tomar café, ver uma exposição, almoçar, trabalhar, encontrar os amigos, jantar muito bem e ainda chegar em casa pensando que precisava ter feito mais três coisas. É caótica, exagerada e apaixonante. Acho que quem escolhe São Paulo, de alguma maneira, gosta dessa intensidade.
Como você enxerga o futuro de morar nas grandes cidades?
Acho que vamos buscar cada vez mais qualidade de vida dentro da cidade. Menos deslocamento, mais bairro, mais áreas verdes, comércio perto, serviços, bons espaços de convivência. O apartamento também vai precisar ser mais flexível. A casa virou escritório, restaurante, escola, tudo ao mesmo tempo. é onde passamos a maior parte do tempo
O que você precisou desaprender para construir esse olhar mais autoral?
Quando você tenta falar com todo mundo fica sem personalidade. precisei desaprender que mercado imobiliário precisa ser sempre formal. E talvez a maior coisa tenha sido entender que o meu olhar também é um ativo.
O que ainda te desafia no mercado imobiliário?
Tudo.
É um mercado extremamente desafiador. É um oceano intensamente vermelho do ponto de vista de competição. As variáveis são muitas. As responsabilidades são grandes.
Um lugar em São Paulo que te faz se sentir em casa
Pinheiros.
Morei na Benedito Calixto. Eu conhecia tudo, fazia tudo a pé. Foi meu primeiro bairro em São Paulo. Tem uma mistura que eu adoro: arquitetura, gente, restaurante, arte, comércio, rua. É uma São Paulo que está sempre acontecendo. mas nos últimos anos o bairro está se transformando e a intensidade da verticalização tem feito essa mudança ser muito rápida. Não sei se estou gostando de como ele vai ficar porque estão destruindo o antigo com alma que dava charme ao bairro. Ainda tem os predinhos da hípica pra ficar como lembrança
Um detalhe que você sempre observa ao entrar em um imóvel
A luz. Sempre. Antes de olhar acabamento, eu olho a luz. Ela muda completamente um imóvel.
Uma pergunta que você se faz constantemente
“Isso ainda faz sentido para mim?”
Eu acho importante perguntar isso para tudo: trabalho, casa, relações, escolhas.
Um livro que vale a pena ler
Sociedade do Cansaço, do Byung-Chul Han. É um livro que conversa muito com o momento que estamos vivendo. Essa ideia de que a gente se cobra o tempo inteiro, de que precisa produzir, performar, estar disponível… acho muito atual.
Algo que as pessoas não imaginam sobre você
Que eu sou muito mais observadora do que pareço. Eu falo bastante, sou intensa, gosto de gente e de movimento, mas estou o tempo inteiro observando tudo. A casa, a roupa, a maneira como a pessoa fala, o ambiente. Acho que é daí que vem muito do meu olhar.
Um filme que vale a pena assistir
Encontros e Desencontros. Amei conhecer o Japão e amo Bill Murray. Acho um filme muito bonito sobre cidade, solidão, conexão e a tentativa de encontrar pertencimento que é tão comum mas pouco falado.

Uma pergunta que você gostaria que te fizessem
“Qual é a vida que você quer construir?”
Porque no fim é disso que eu estou falando o tempo inteiro. De imóveis, de cidade, de arquitetura, de trabalho… mas, no fundo, é sobre como a gente escolhe viver.




